sexta-feira, 29 de julho de 2016

Piada Sem Graça [Nenhuma!]

"O texto que se segue é um comentário livre sobre algumas opções do enredo em A Piada Mortal. Há, portanto, spoilers."
Para chegar aonde pretendo, de início, vamos supor que Watchmen fosse adaptado [como já o foi, é claro, só que] numa eventualidade onde os prelúdios apócrifos fossem utilizados como "rebites" dentro da história principal. E que fique bem claro: não estou fazendo nenhum juízo depreciativo acerca desses contos preambulares, até porque gosto de boa parte deles e sequer pactuo com a corrente majoritária que os profana ou acende fogueiras ideológicas a seu respeito. O que quero dizer é que, na minha ótica, não faz o menor sentido traduzir uma obra consagrada, fazendo uso de enxertos que, teoricamente, problematizariam "melhor" as escolhas de uma personagem Y até o X da questão. 

Por motivos óbvios, é inviável que a adaptação funcione no nível ipsis litteris, pelo menos quando as tratativas estão no campo live-action, mas, por outro lado, se trouxermos para a discussão os recentes longas-metragens animados de Batman Ano Um e Cavaleiro das Trevas, a situação muda completamente de figura. Os dois filmes em comento não só foram fiéis às suas respectivas fontes, como também alcançaram êxito na difícil tarefa de emular e conferir movimento aos traços dos artistas originais, David Mazzucchelli e Frank Miller. Posto isso, essas eram minhas expectativas quando recebi com muita alegria a notícia que os mesmos realizadores dessas empreitadas seriam os responsáveis pela produção de A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland. Some-se a isso o fato de que Brian Azzarello (100 Balas) seria o roteirista e o "7 a 1" para o time da casa estaria garantido. Ênfase no "estaria" a partir de agora. 


"Errou a Gata, Bruce."
"46" esse é o número exato de páginas da graphic novel; nem mais, nem menos. Um número que, indubitavelmente, deve ter atormentado Bruce Timm e Cia. Um número que instilou perguntas cujas respostas, infelizmente, giraram em torno daquelas tais "escolhas de uma personagem Y até o X da questão". Na visão dos produtores, havia a necessidade de que A Piada Mortal fosse estendida para ultrapassar a desejada uma hora e dezesseis minutos de vídeo e, para tanto, a opção feita almejava contextualizar o momento da vida que Barbara Gordon enfrentava quando, para o seu azar, abriu aquela porta. E isso levou cerca de meia hora para ser feito, praticamente replicando o estado de coisas que levou a ruptura de Dick Grayson com o Mentor [em Velhas Feridas], mas adicionando aqui um elemento polêmico e de gosto bastante duvidoso.


Devo dizer que o ato sexual em si não me incomodaria tanto se a tensão entre os dois de fato caminhasse para isso. Não caminhava, na realidade, o que se constatava até ali era uma relação estritamente profissional e, vá lá, paternal, sem espaço para algo assim. Ao compor tal cena, de certa forma, Azzarello acabou mitigando o choque anafilático que estaria reservado a personagem na segunda metade do filme e, até mesmo, maculando a aura casta que o público tinha da mesma - algo que, a propósito, só me trouxe más recordações. Um prato cheio para o ativismo feminista, que pode [e deverá] vislumbrar uma alusão ao empoderamento [da Batgirl] pela via inversa a que costumam patrocinar. Nesse quesito em especial, o roteirista já sentiu em primeira mão que mexeu em vespeiro. 

IMHO, justamente pelo fato de ser uma história enxuta, a adaptação de A Piada Mortal deveria ter seguido o exemplo dos curtas-metragens DC Showcase ou mesmo trabalhado com mais coerência os três atos que se propôs a contar, mormente no terceiro, valorizando a luta de Barbara por superação [em prol da acessibilidade] e redefinição identitária. Minha melhor sugestão seria a de que o filme tivesse como:1º ato, das duas, uma: ou Batgirl Ano Um, de Scott Beatty, Chuck Dixon e Marcos Martin; ou Noite das Damas, de J. M. Straczynski e Cliff Chiang - já resenhado no Almanaque; 2º ato, A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland; e, por fim, o 3º ato com Chama de Esperança, de John Ostrander, Kim Yale e Brian Stelfreeze [abaixo]:

A Piada Mortal poderia ter sido conduzida como uma história de transformação, tão verossímil quanto possível, valorando, por que não, a luta de pessoas comuns na dura retomada da própria autonomia diante de tamanhas limitações físicas. Eis aí uma piada que teria alguma "graça", mas, pelo visto, a DC Entertainment parece seguir não compartilhando desse mesmo "senso de humor".

Escrito por Luiz Gustavo de Sá
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quinta-feira, 21 de julho de 2016

Conta Comigo

Uma das sequências mais divertidas de Stranger Thingsna grade da Netflix desde sexta-feira passada [15/07] – se dá quando Dustin telefona para seu professor de ciências, o Senhor Clarke, num sábado, às 22hs, para fazer-lhe uma simples pergunta: “Sabe algo sobre tanques de privação sensorial¹? Mais especificamente, como construir um?”. A estranheza de Clarke que se sucede não é sobre a natureza em si da questão, mas sobre a inconveniência do horário em que estava sendo feita, sobretudo por se dar no exato momento em que se refestelava, explicando à namorada [arrepiada!] como se deram os efeitos especiais de uma cena memorável de O Enigma de Outro Mundo.

O que torna esse diálogo mais saboroso, além da óbvia associação entre a intrepidez inocente Goonie atrelada a excelência sci-fi gore oitentista, é o fato de nos levar de volta a um tempo em que era impossível “Googlear” a resposta que Dustin queria. Se Stranger Things é apenas "uma divertida colagem vintage de temas spielberguianos, sem alma", pessoalmente, acho discutível, pois acredito que, boa ou ruim, a arte representa um apanhado de referências, um rizoma, que carrega consigo os ímpetos [alma?] dos artistas. Por outro lado, em sentido lato, concordo tanto com Ana Maria Bahiana quanto Tiago Belotti, que a alma do negócio aqui reside na intrigante Eleven, vivida pela jovem Millie Bobby Brown.

¹ Levanta a mão aí quem se lembrou disso! Outra: aposto uma capinha do Hal que o Professor Clarke é uma homenagem a esse ilustre senhor.

Atriz mirim das mais expressivas, Millie entrega aos espectadores uma criança fraturada por anos de abusos científicos, de olhar desconfiado e com elementos paranormais telecinéticos que são verdadeiros pot-pourris advindos de Carrie, Scanners e até dos dilemas vividos por Jean Grey em X-Men, referenciada indiretamente ante as sucessivas menções a clássica edição nº 134. Aliás, os easter eggs plantados pelos Irmãos [Matt e Ross] Duffer promovem um diálogo bastante inusitado com os mistérios que cercam o desaparecimento de Will Byers, onde pôsteres e canções dão o tom² do que ainda está por vir.

² Exemplo: o pôster de Evil Dead no quarto de Jonathan, tal qual o decorrido na cabana de Ash, sugere que a entidade demoníaca/criatura do mundo invertido está à espreita. Soma-se a esta sensação de perigo a onipresença da faixa “Should I stay or should I go”, do The Clash, e o caldo [cultural] está devidamente entornado.

Posso estar errado, mas acredito piamente que Stranger Things funciona melhor com o público trintão [para cima], contudo isso não significa que seja algo hermeticamente fechado ou dirigido ao mesmo. Histórias que se sustentam à base de núcleos infantis sob um fundo adulto tendem a ser atemporais e costumam fugir a convenções de gênero. Nesse contexto, encerro o texto com a deixa de três bons [e recentes] filmes que fazem um bom uso da infância como forja de sentidos e percepções do adultecer, quais sejam:

Amor Bandido (Mud, 2012): rapidamente Jeff Nichols está se tornando um dos meus diretores contemporâneos favoritos. Sobre dois garotos – Ellis e Neckbone – que passam a ajudar um foragido da justiça a consertar um barco para que ele possa fugir com a mulher amada.
A Viatura (Police Car, 2015): a parceria entre Travis e Harrison rendeu ao diretor Jon Watts frutos, digamos, aracnídeos. Sobre dois garotos que encontram o homônimo veículo aparentemente abandonado e decidem dar uma voltinha nele. Visceral!
Destino Especial (Midnight Special, 2016): olha aí o Jeff Nichols de novo! Lembra do Starman: O Homem das Estrelas (Starman, 1984) de John Carpenter? Ok, agora imagine se “Starman” fosse Alton, uma criança com dons incríveis que lê velhas revistinhas do Superman [de John Byrne] e dos Titãs [de Wolfman & Pérez] enquanto o pai e um amigo fazem o diabo para fugir das autoridades - interessadas no "Starboy".

Confiem em mim, esses filmes virão bem a calhar na crise de abstinência que corações e mentes, fatalmente, terão que lidar ao fim de Stranger Things. Eu bem sei disso.

Escrito por Luiz Gustavo de Sá
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domingo, 17 de julho de 2016

Cavaleiro Solitário

O discurso memorialístico perpassa como poucos minhas entranhas, sobretudo quando não se vende como verdade incontestável sobre o factual, mas tão somente como “uma” dentre muitas, a face oculta do que está visível a olho nu. Realidades fabricadas com um pé no cotidiano, que suscitam o imaginário de outrem na via da escrita, ou mais cedo, na linguagem, a memória, a vontade de lembrar, de conservar algo precioso para a sociedade ou para o sujeito, instilando-o a sobreviver ao arbítrio incontrolável do tempo.

De outro modo, se esquecer é uma forma de morte em vida, lembrar seria permanência na longa duração e a experiência que deseja ser publicada é colocada em perspectiva em autocrítica e homenagem. Desde que estamos pensando em palavras, existe a memória ficcional, a base do que se considera a escrita biográfica e autobiográfica. Como disse, esse tema revira minhas entranhas de ponta-cabeça e, não por acaso, foi diretamente responsável por cravar nos últimos dois anos Os Ignorantes (2014) e Pílulas Azuis¹ (2015) como as melhores histórias em quadrinhos desse modesto Almanaque.

Ironicamente, “Dark Night: A True Batman Story”, de Paul Dini e Eduardo Risso, repete os ingredientes supracitados, acionando turbinando as papilas gustativas desse editor como poucas histórias fizeram nesse passado recente. Essa graphic novel original traz consigo um corajoso relato de Dini sobre um dia de meados de 1993 em que sofreu um espancamento aleatório e teve sua face parcialmente destruída por dois agressores. Contudo, a obra não se debruça única e exclusivamente na repercussão dessa violência, embora, claro, ela seja o instrumento que permite racionalizar velhas feridas emocionais.

¹ Qualquer dia desses lembrem-me de falar sobre Pílulas Azuis. Essa é Top 10 pessoal. 

O tom confessional adotado pelo roteirista funciona como uma postulação dele próprio, reclamando uma identidade para si e a busca de registro, como um trabalho de ordenação, rearranjo e significação do trajeto de uma vida no suporte do texto, criando-se, através dele, um autor e uma narrativa. Nesse contexto, o próprio Dini tem diversos pensamentos laterais e apresenta sua história como se o imaginário gothamita estivesse interagindo com ele, no nível do que Eddie Valiant ou Frank Harris experimentam em Uma Cilada para Roger Rabbit (Who Framed Roger Rabbit, 1988) e Mundo Proibido (Cool World, 1992).

De início, Dini contextualiza fragmentos da infância com o leitor, demonstrando-lhe as engrenagens de sua cabeça – ou, vá lá, às nossas [nerds]. E é logo ali, no imaginário infantil, representado nas sutilezas irônicas do traço de Risso, que já residia em Dini as mais profundas crenças, ilusões, feridas, fantasias, percepções, projeções, projetos e sonhos. O exame do imaginário da criança em Dini proporciona uma decodificação de ferimentos nunca cauterizados [via bullying], potencialidades desperdiçadas [socializações extraestúdio] e também da criatividade e o poder de transformação humano. Quer dizer, é lá atrás que sentidos e percepções de mundo são forjados, mormente com maior sensibilidade/profundidade – e isso vale tanto para Dini quanto qualquer um.

Como medidas inconscientes de autopreservação, tanto o jovem Dini – quanto sua versão madura – cria histórias, guarda para si crenças que não são suas, deixa-se levar pelo mundo dos “adultos”, sofre em silêncio ou irrequieto, todavia não desiste de seus propósitos, quais sejam: ser honrado em seus espaços e amado pelos resultados do trabalho. E quanto a isso, sem falsa modéstia, Dini admite em mais de uma ocasião sua felicidade e sorte de poder fazer o que gosta e, principalmente, de fazê-lo bem. Segundo o próprio, isso não seria possível sem a camaradagem e atuação conjunta de equipes criativas, mas impraticável sem a compreensão dos pais e a sabedoria onipresente do produtor Alan Burnett.

Entre uma coisa e outra, também saltam aos olhos conversas de bastidores na icônica Batman Animated Series, a exemplo do enredo rejeito de um episódio com a participação especial de Morpheus e Mortenascido após o ataque. Nesse ponto da história, as intervenções dos “amigos imaginários” passam a ser mais constantes e repressivas², questionando-o acerca da relevância de sua arte que, via de regra, era levada a cabo sem mensurar limites ou considerar o preço que a vida pessoal pagava.

² Trechos estes materializados, na maioria das vezes, pelo Coringa; que desempenha aqui, na vida de Dini, o mesmo papel que o imortalizou na ficção.

A transmissão do testemunho faz de Dini um corredor do essencial com engajamento e interação com o público leitor, fazendo, neste caso específico, às vezes de um autor performático de autoficção, ou seja, estaria construindo a si e ao próprio texto ao mesmo tempo. Essa verdadeira invenção de si aproxima a autoficção da psicanálise, pois o sentido de uma vida não se descobre e depois se narra, mas se constrói na própria narração. Logo, Dini cria uma ficção de si, e essa ficção não é verdadeira ou tampouco falsa, é apenas a ficção que criou para si mesmo.

Tal qual a literatura, os quadrinhos são também canais que conjugam, admitem e transformam imagens internas, que podem vir a conferir novos significados a histórias e imagéticas tradicionais, ampliando, inclusive, a consciência e o sentido de vida dos indivíduos. Dark Night vai por esse caminho, indicando novos rumos [pessoais] para Dini e, até mesmo, para o Batman como representação abstrata da perseverança humana.

***

Antes de ir, gostaria de registrar que Dark Night tem cacife para ser meu quadrinho predileto em 2016, inclusive, desde já, franco candidato a um punhado de Eisners no ano vindouro. Mas nada disso seria possível não fosse a arte de Eduardo Risso, que tem o mérito de transpor todo o surrealismo atrelado ao testemunho de Dini. O que, pensando bem, poderia ter abarcado também o ponto de vista do artista sobre o roteiro ao qual estava trabalhando para dar vida - numa pegada metalinguística, a quatro mãos, como a de Os Ignorantes.   

Escrito por Luiz Gustavo de Sá
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quinta-feira, 14 de julho de 2016

Punk Rockers Vs. Skinheads

2016 tem sido um ano bastante produtivo para a irmã mais velha de Morpheus. Pena que os bons vão mais cedo ou, como diria Renato Russo, “morrem jovens”. Anton Yelchin é a prova viv morta disso e partiu de maneira exótica como muitos artistas que o foram também em tão tenra idade [27 anos]: após sofrer um estranho acidente de carro em sua própria casa; seus amigos o encontraram prensado entre o seu carro, a caixa do correio de tijolo e a vedação de sua casa¹

Tão ilustre quanto seu insólito obituário, foi sua breve cinebiografia, entregando, se não elogiáveis atuações, definitivamente uma sólida participação em bons filmes. Nesse sentido, o primeiro nome que vem a minha cabeça é “Ethan Hawke”. Quer dizer, fico imaginando se Yelchin não estaria predestinado a tecer sua própria “Regra Hawke”, mas, enfim, fato é que fica o legado de películas irrepreensíveis como Alpha Dog (Alpha Dog, 2006), O Exterminador do Futuro: A Salvação (Terminator Salvation, 2009), Loucamente Apaixonados (Like Crazy, 2011), A Hora do Espanto (Fright Night, 2011), Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013) e, claro, seu espirituoso Chekov na trilogia Star Trek - com Sem Fronteiras às vias de sua première.

¹ Fonte: verbete do ator na Wikipédia.

Sala Verde (Green Room, 2015), um de seus últimos filmes, é um tour de force pelo submundo skinhead, na cena interiorana norte-americana. Thriller de impasse dos mais tensos, narra a história de uma banda punk rock que, em troca de alguns trocados, cruza as estradas em busca de espeluncas para tocar sua música, até o dia em que, após uma indigesta apresentação em bar skinhead, um de seus integrantes, ao retornar no camarim para pegar seu celular esquecido, se depara com o corpo de uma jovem traficante que acabara de ser assassinada. Constatando que o gerente dali não estava nenhum pouco interessado em atrair a atenção das autoridades, rapidamente, Pat (Yelchin) e seu grupo se tranca naquela sala e começa um diálogo impossível com os extremistas. 

Dali em diante, o que ocorre é um inferno compartimentado, curto e grosso, mas sem se render a sequências gore ou grafismos baratos. Fruto da direção/roteiro do estreante Jeremy Saulnier, Sala Verde é 99% atmosfera e 1% violência crível/seca, sem firulas estéticas. Muito disso se deve a atuação cirúrgica de Patrick Stewart na pele do Senhor Darcy, proprietário do clube e líder dos skinheads, delegando tarefas e antecipando os passos dos "convidados" ou policiais que porventura pisassem lá. Tudo em compasso de fúria autocontida e paciência estoica, me lembrando, inclusive, a vivacidade em meio ao caos do Senhor Wolf, de Pulp Fiction. 


Citar Tarantino não foi por acaso, Saulnier causou furor em 2015 no Festival de Cannes e parece repetir a fórmula de sucesso do primeiro. Em última análise, como bem disse o Rodrigo Salem, Sala Verde também é "um primo interiorano de Assalto à 13ª DP, de John Carpenter". Se não percebeste, só cachorro grande.

Escrito por Luiz Gustavo de Sá
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quarta-feira, 13 de julho de 2016

Ode à Perversidade

Mesmo em plena era dos gadgets de leitura, como o Kindle ou aplicativos genéricos para celular e tablet, não raro, ainda me flagro com um livro de bolso da L&PM Pocket. Com um acervo que supera quinhentos títulos, em grande maioria tombados [domínio público], há de tudo, desde compilações de famosos contos e romances da literatura mundial a quadrinhos como o Recruta Zero [Mort Walker], Garfield [Jim Davis] ou o Rê Bordosa [Angeli]. Posto isso, minha última aquisição e, por conseguinte, inserção no córtex foi o Assassinatos na Rua Morgue & outras histórias, de Edgar Allan Poe.

Para muitos literatos, Poe é considerado o pai do romance policial moderno. Sua influência na prosa policial e de mistério é tamanha, que basta dizer se não fosse o conto Assassinatos na Rua Morgue (1841), não haveria Sherlock Holmes (Conan Doyle, 1887), Hercule Poirot (Agatha Christie, 1920), Padre Brown (G. K. Chesterton, 1911), Don Isidro Parodi (Bioy Casares e J. L. Borges, 1950) e tantos outros investigadores que até hoje encantam milhões de leitores.

O protagonista deste conto, o francês Monsieur Auguste Dupin, através de um sistema de dedução lastreado em sua profunda capacidade de observação dos fatos, é capaz de ler os pensamentos do interlocutor e desvendar um dos mais intrincados e misteriosos casos de assassinato já enfrentados pela polícia francesa: o bárbaro duplo assassinato de mãe e filha num apartamento na Rua Morgue

Os de boa memória se lembrarão da participação mais que especial de Dupin em Liga Extraordinária [Volume 1], quando o mesmo é contatado por Mina Murray para ajudá-la a solucionar uma série de coincidências que podem culminar na reabertura do bizarro caso da Madame L’Espanaye e a rebenta, Camille. Igualmente distintos, as outras historietas que completam as 146 páginas desse livro de bolso são:

(1) O demônio da perversidade remete ao insólito relato em primeira pessoa de um condenado às vésperas da execução sobre o espírito maligno que o impeliu a cometer seus crimes; (2) Hop-Frog ou Os oito orangotangos acorrentados nos ensina que nem sempre a vingança é um prato que deve se comer frio; (3) Os fatos que envolveram o caso de Mr. Valdemar não lembro exatamente em qual volume se deu, mas esse conto foi adaptado em Hellboy por Mike Mignola; se atem aos relatos sobre a experiência que mesmerizou o corpo de um moribundo antes de sua morte e a adiou por cerca de sete meses; (4) O gato preto mais uma aparição do “espírito maligno” (demônio da perversidade) – impossível não comparar o conto O Preço, presente em Criaturas da Noite, de Neil Gaiman & Michael Zulli, com este de Poe, sobretudo no que toca às agruras sofridas pelo gato preto [no vídeo abaixo]; (5) Nunca aposte sua cabeça com o diabo a irônica história de Toby Dammit


Enfim, leitura agradabilíssima que fiz, única e exclusivamente, com fins de pesquisa para minha tese, mas fugiu ao controle, entregando-me mais do que queria, como se estivesse bisbilhotando o celeiro de ideias de outrem.

Escrito por Luiz Gustavo de Sá
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