segunda-feira, 30 de julho de 2018

Do que Emma Frost Gosta(va)

Do que as mulheres gostam? Mel Gibson talvez saiba - provavelmente não -, mas a esmagadora maioria dos outros proprietários de cromossomos y, por desconhecerem tal resposta, sofre os dissabores e os ímpetos de fúria do sexo oposto. Naqueles dias, um “nada” que habitualmente já é um universo em constante expansão, transforma-se instantaneamente em um multiverso de possibilidades. Tudo culpa da maldita sangria¹

Na nona arte, por anos a fio, a mulher, com raríssimas exceções, foi invariavelmente o mesmo personagem, uma acéfala démodé esculpida à revelia das leis da física como objeto de fetiche da molecada aficionada pela justiça praticada com as próprias mãos. Repetido à exaustão, o arquétipo ganhou status de clichê e vem, por uma ironia do destino, perdendo a passos largos sua força para as mulheres reais, ferradas da cabeça, espirituosas e perigosamente cativantes. 

Não defendo a celulite como catalisador de ideias, na verdade nem cheguei a cogitar tamanho despautério, afinal de contas, uma figura curvilínea sempre será um colírio para os olhos, o que quero dizer é que uma mesma Emma Frost pode conciliar entre suas particularidades tanto a volúpia quanto um intelecto mais avantajado. 
 
Aproveitando a deixa, merece uma profunda digressão o último alicerce intacto da Era Grant Morrison, o breve triângulo amoroso formado por Scott, Jean e a referida Rainha Branca. Aí vai uma verdade inconveniente, a loira fatal eclipsou por completo o efeito fênix de Jean Grey, tanto que não havia qualquer clamor por seu ressurgimento das cinzas. Mais que isso, a influência da aristocrata revolucionou o líder mutante, privando-o de fantasmas, inibições, e as restrições advindas da perfeição da esposa que inconscientemente repercutiam em campo, ou mesmo nos bastidores da ação. 

Um amor juvenil, idealizado demais para ser real, deu lugar a variante do amor que funciona entre adultos, moldado na aceitação² dos defeitos mútuos e no poder de se surpreender dia após dia. Com Jean, verdade seja dita, tudo passou a ser miseravelmente previsível, dadas as grandes expectativas que poderia se esperar de sua parte, com a cumplicidade de Emma, Scott pegou no tranco e fez a maior de todas as descobertas: conheceu a si próprio. Um autoconhecimento que julgo ter sido, em parte, bem executado na gestão Brian Bendis, mas colocado em xeque quando o mutante foi dado como morto após anos de construção e desconstrução, como a terceira via. Recentemente, mais precisamente após o desfecho de Inumanos vs. X-Men, perdi o interesse, acredito que não em definitivo - porque nunca é -, mas o suficiente para ignorar a avalanche multicolorida de equipes. O maior dissabor foi com os destinos desses dois:

[SPOILER] Ciclope _____________ e Emma _______________

Uma pena. Tinha plena convicção que o casal ainda tinha muito pela frente; e por outro lado, há quem chame nossa atenção para a qualidade nos materiais contemporâneos - não discordo, visto que não sou leitor deles -, mas excetuando Velho Logan e Cable, nenhum deles consegue ter apelo comigo. Fato é que minhas entranhas já começam a se contorcer e clamar por radicalismos, declarar terra arrasada - como já declarei uma vez - e instituir um novo povo do amanhã.

Enfim, Jean estava para “Vada Sultenfuss” assim como Emma para “Mrs. Robinson”. 
¹ Que o velho bastardo perdoe o trocadilho e também aqueles bufões tuiteiros daquela vez.
² Alimentada num contexto de insinuações de toda sorte e reiterados segredos de ambas as partes, é que se deu em X-Men Sombrios: A Confissão a tão aguardada conversa entre Scott & Emma. Impecável, contudo repleta de pecados.Por último, alguém aí anda acompanhando The Gifted? Eis uma grande surpresa, tanto que nem me importo mais com o futuro - que futuro? - da franquia X nos cinemas, sem falar que...


...essas Irmãs Stepford (ou Cuckoos) são um barato; se bobear, vão roubar a série para elas. Espero que, alguma hora, Emma apareça para dar um corretivo nelas.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

A Regra dos 13 & Castle Rock

Nesses tempos de streaming e facilidades no acesso a conteúdos, o maior problema para o usuário desses serviços, quem diria, é o de escolher o que assistir ante a demanda absurda de novidades lançadas semanalmente. A priori, esse modo combo, que disponibiliza temporadas completas em plataformas, parece bastante sedutor, dependendo como o ritmo, enredo e os cliffhangers da série são executados; quer dizer, não é qualquer programa que funciona na base do hit combo. Com exceção, por exemplo, das temporadas inaugurais de Demolidor e Justiceiro, passei maus bocados para encerrar os respectivos ciclos de Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro

Caso as últimas fossem exibidas à moda clássica, um por semana, talvez, os pontos fortes fossem potencializados e os fracos, dispersados. Outro fator que joga contra o time da casa é a fórmula dos treze capítulos, que engessa tramas e subtramas, criando barrigas conceituais, geralmente, na metade das histórias. É só dar uma rápida zapeada em resenhas críticas ou threads de redes sociais, que tu tens a exata noção de quão contestado esse formato tem sido. Sabe por quê? Porque a noção de série se perde quando tu eliminas a noção de seriado: 

No modo combo, o fator “intervalo regular” vai pelos ares e a série transforma-se em filme de treze horas de duração. Logo, os produtores deveriam – e precisam! – repensar certas propostas e privilegiar a narrativa em vez da estrutura. Se tiveres uma história que comporta treze horas, ótimo, mas caso o script só dê conta de seis, por quê forçar a barra? Uma interpretação rasteira sobre o maior número de menções à Netflix no Emmy 2018 pode transparecer a ideia que exista de fato um boom de qualidade em curso no gigante do streaming; por outro lado, tenha em mente que a HBO não lança 1/5 dos números da primeira num semestre e faz o diabo dentro de suas diminuídas possibilidades – não é eufemismo, é ironia mesmo, ok? Castle Rock é uma série que minha patroa elegeu como “nossa”. Vi o piloto e – devo dizer – acho que ela foi bem feliz na escolha. Pelo que sondei por aí, a temporada contará com dez episódios e a julgar pelo debute, olha, parece bem promissora, sobretudo porque o título remete a cidade fictícia no estado do Maine, utilizada ou citada em dezenas de obras de Stephen King. Sim, Castle Rock tem a livre premissa de perpassar enredos e locações Kingianas, a exemplo da icônica Penitenciária de Shawshank de Um Sonho de Liberdade (1994) que, aliás, ocupa boa parte do tempo de tela. 


De partida, conhecemos rapidamente Dale Lacy (Terry O'Quinn¹), um sujeito que se despede da esposa no que parece ser um dia comum de labuta, sai de casa no seu carro e comete suicídio. Detalhe: ele era o diretor do presídio em comento e estava prestes a se aposentar. Sua substituta, a Diretora Porter, começa na função fazendo um inventário da prisão e descobre que uma ala inteira foi desativada. Ao enviar homens para checar o motivo do abandono, um deles descobre uma espécie de jaula subterrânea mantida em segredo por Dale e dentro um prisioneiro sem identificação ou qualquer registro.

A história desse misterioso detento cruza com a de Henry Deaver (André Holland), um advogado que durante a infância desapareceu por uns dias em 1991 e virou lenda local. É cedo para especular, mas o mistério por trás desses dias perdidos aparentemente tem alguma conexão com esse "John Doe" – vivido por Bill Skarsgård, um sujeito que parece confortável em papéis monossilábicos e miseravelmente assustadores em suas sutilezas

Fechei com essa série. Vamos aguardar os próximos desdobramentos. 

¹ Jurava que o Terry O'Quinn iria estourar após Lost. Ledo engano. Bom revê-lo e repetindo a parceria com o J.J.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

A Maldita Máscara

É difícil ler uma história convencional de Will Eisner com o Spirit e ser convencido que Denny Colt é um super-herói. Provavelmente, o gênio pioneiro do seu criador tomaria isso como elogio; e, quem sabe, ficasse corado se me visse dizendo por aí que, na dúvida ou na crise criativa, o caminho que os autores têm que buscar numa correção de curso ainda é o constante naquelas páginas de [quase] 80 anos atrás. 

Não sou tão saudosista quanto transpareço, na verdade, já fiz bons inimigos na vida por rechaça-los na hora da falácia “bom era nos velhos tempos”. Quem fala isso, lamento, mas parou no tempo. O quadrinho moderno permite mais ousadia, experimentações e até escapa ao mero mimetismo cinematográfico¹ tão costumeiro nessa indústria; claro, desde os primórdios, a narrativa gráfica/arte sequencial sempre foi dada a infringir regras, a diferença hoje – assim penso – é que o quadrinhista contemporâneo cria com a convicção de que não existe regra alguma. E quer saber? Eles estão certíssimos.
 


A história predileta de Jô Soares é a do conto de Gerhard Shnobble. A minha também!
Os precursores tinham que lidar com bastante porcaria, questões de autoestima, depreciação do ofício vinda de terceiros, impasses que punham em xeque a dignidade do próprio ofício; e é bem verdade que esses temas ainda despertam entrechoques existenciais entre os autores, sobretudo nas redes sociais, contudo, ninguém pode negar que exista hoje uma liberdade e valorização da carreira que antes não existia. Lendo a biografia de Will Eisner, Um sonhador nos quadrinhos, de Michael Shumacher, tu acabas tendo a exata noção de que a vida inteira dele foi em cima de um ringue, arbitrando ânimos e interesses entre correligionários de profissão e financiadores das operações. 

Uma luta que, em vida, talvez ele nunca tenha de fato conhecido o vencedor, embora sua contribuição para a indústria como primeiro bastião do direito autoral seja a pedra de toque na proteção dos criativos perante conglomerados do entretenimento. Por outro lado, enquanto leitor, o que o legado Eisner suscita dentro de mim é essa atitude de imaginar um quadrinho de super-herói – ou qualquer outro – como uma oportunidade mais comercial de contar histórias pequenas no manto dissuasivo de uma máscara: Quer dizer, o Spirit era/é, na falta de expressão melhor, um boi de piranha. Um catalisador de tramas menores que, provavelmente, seriam maiores caso fossem trabalhadas com o foco narrativo exclusivo no Spirit. A falta dessa especificidade Eisneriana na produção atual, em minha opinião, é o grande problema de boa parte do que chega às bancas: tramas egocêntricas, que focam demasiadamente no protagonismo, nas necessidades do dono da revista.

Perdoem-me os fãs desse estilo e do autor – sou um deles, mas pelas razões certas –, mas caso o modus operandi campeão de Tom King vire a tônica² desse restinho de década, o Batman vulnerável dele pode se tornar o oposto completo da [minha] idealização do personagem: alguém que demonstra humanidade nos seus silêncios, dentro de atos concretos em que o próprio não sabe como externá-los verbalmente, demonstrando que sua falta de tato humano não o torna menos humano. 


O olhar de Tom King é o completo oposto do que estimo no Batman e isso não quer dizer que eu esteja descredenciando todos os feitos do autor nos últimos 50 números de sua elogiada fase; pelo contrário, gosto de me sentir desafiado, de ver o que não gosto de ver e, de vez em quando, me flagrar dando o braço a torcer – mais ou menos aquela história que conversamos noutro dia. Para encerrar o texto, meu quadrinho campeão é assim: Trata-se de história publicada em The Spirit of Eisner Newspaper, uma antologia de 12 páginas organizadas por Sean Phillips publicada ano passado [2017], que celebrava o centenário de nascimento de Will Eisner, replicando o estilo de publicação – folha larga – do seu suplemento de quadrinhos em jornais estadunidenses entre 1940 e 1952. A tradução e letreiração aqui é de minha autoria mesmo - se necessário, clique para ampliar.

Note que a participação de Spirit é mínima, dá espaço para o barman e Marvin confabularem e, no final, a intervenção do herói demonstra uma faceta humana despretensiosa, sutil, que faz toda a diferença para a história e o protagonista. 

Quadrinhos assim são raros. 

¹ Há um movimento inverso em curso: os quadrinhos influenciam o cinema. ² Os autores de Batman tendem a ser impressionáveis. Frank Miller ditou moda, Grant Morrison idem. Aí – reitero! – não se surpreenda se a herança deixada por Tom King seja a de um Batman que espelhe seu estilo.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Por que existimos?

Adoro tirinhas. Não sei dizer se o que a Pictoline faz pode ser classificado como tirinhas, apenas que a missão deles de publicar “notícias e informações em imagens épicas” tem forte apelo comigo. Algumas como a que ilustra essa postagem são tão nevrálgicas quanto aquelas de outro dia, de Toby Morris, lembra? 

Enfim, essa tirinha, quadrinho ou webcomic - não importa - adapta a mensagem presente no livro Por que as Nações Fracassam, de Daron Acemoglu e James Robinson, e dá o que pensar. E devemos pensar. Até outubro, se (im)possível.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Fale com Ele

Uma parcela expressiva da crítica especializada que volta e meia analisa os filmes de Christopher Nolan, põe em xeque o hábito desse diretor de explicar exaustivamente, quase que ipsis litteris, as motivações dos personagens, cada engrenagem que lhes cercam, deixando pouca ou nenhuma margem de manobra para o espectador tirar suas próprias conclusões. Não acho que seja para tanto, mas reconheço que, ao menos na trilogia quiróptera, esse curso de ação não chega a me incomodar; na verdade, o esmero em conferir verossimilhança, sobretudo, na logística de gadgets do Batman é uma das [várias] coisas que gosto nessas películas. 

Um clássico exemplo disso reside na explicação utilizada durante a confecção da máscara e capuz: pedidos separados¹, quantidades vultosas para não individualizar a figura de um comprador e especificações detalhadas para que os próprios Bruce e Alfred pudessem montá-los. Há quem se incomode com essa preocupação obsessiva de lançar luzes nos mínimos detalhes, como se o realizador estivesse tentando ancorar o personagem ao mundano como uma fuga da realidade: ele estava dirigindo um filme de super-herói e não era algo que o deixava confortável

Novamente, não vejo por esse lado. Quando os Irmãos Nolan quebram suas cabeças para que o mundo de Gotham faça sentido a audiências de cinema, se bem feito, esse esforço serve como contribuição à própria mitologia do personagem nas histórias em quadrinhos, preenchendo lacunas, respondendo perguntas que talvez ninguém tenha feito antes. Claro que não dá para julgar um filme pelo trailer, mas um item específico me chamou atenção justamente por ser algo que sempre me incomodou nas aventuras do Aquaman: o fato dos atlantes vocalizarem dentro d’água como se estivessem na superfície.
Excerto de The Brave and the Bold #32/2010, de J. M. Straczynski & Jesus Saiz, publicado no Brasil em Dimensão DC: Lanterna Verde #32/2011; note que por mais instigante que seja o roteiro, ao se ignorar o fator comunicação submarina, a história sofre revés na suspensão de descrença.
Parece bobo, eu sei, mas desculpa, não dá. Se no material original, essa suspensão de descrença falha miseravelmente comigo, o que posso dizer quando a ouço, reproduzida em live-action? Em defesa de James Wan, tu me lembras de que o Maravilhoso em Aquaman remete - por que não? - ao maravilhoso literário, de fábulas e contos de fadas, onde o sobrenatural pode ser factível porque o leitor abraça a convenção da narrativa, o que torna inteligível a existência do impossível – vide o caso de animais falantes. Agora imagine-se como um atlante médio e tente dizer “foda-se, Luwig!” com a boca cheia de água. Conseguiu? Já tentei inúmeras vezes e nunca tive sucesso, mas ei, não desista, ok?Em Liga da Justiça, Mera cria um bolsão de ar para conversa com Arthur. Faz sentido, o que não faz – e quero ser enganado³ durante o filme solo dele – é vê-lo, aparentemente, falando sem esse artifício. Aí não. Nos quadrinhos, não raro, nos deparamos com recursos narrativos que driblam criativamente limitações vocálicas dos personagens, entregando quadrinhos sofisticados, que transformam o portador de necessidades especiais em alguém que tem bastante a dizer, mas de um jeito pouco usual. 
O recordatório acima, presente na edição supracitada, resolve a questão: Aquaman é um telepata. Se a especificidade desse dom é o direcionamento, isto é, a vida marinha, os Atlantes também deveriam estar dentro desse raio de abrangência.
Para fundamentar isso, vou usar o Clint Barton de Matt Fraction que, em determinado momento, fica surdo e passa a se comunicar por linguagem de sinais; o autor vai até mais longe com Lucky, o cão de Clint, que tem balões simulando via símbolos como ele, supostamente, compreende o mundo ao seu redor. Com Raio Negro, o buraco é até mais embaixo, já que se trata de personagem cujo poder destrutivo da voz impele um automutismo que, se bem aproveitado, rende até Eisner; e no cinema, Oscar de melhor filme. Esse tipo de contexto, que desafia convenções linguísticas e/ou se adapta às dificuldades sensoriais dos falantes, tem cacife para oferecer uma experiência única, fora da caixinha – ou do aquário.Não tenho confiança que veremos algo assim no cinema e sendo bem franco, o que esperam de um Aquaman com atitude de Sons of Anarchy e personalidade de Flipper?! 

¹ Máscara frontal destacável e acoplável com hastes (orelhas/chifres) com mecanismo de áudio e vigilância (escuta) embutidos. ² Não sou exatamente um especialista em Aquaman; pode e deve existir histórias que essa linguagem submarina é problematizada nos termos desse texto. ³ Uma simples telepatia ativada quando no meio subaquático já daria um bom caldo de peixe.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Perdas & Mortes

Round 1

Deus salve os desenvolvedores do Shazam. Não, não me refiro a Bill Parker & Charles Beck. Claro, eles merecem mais que as bolas de chiclete e poses para Instagram que andam recebendo por aí, mas isso é conversa para outro dia. Refiro-me ao aplicativo que identifica músicas com um simples toque na tela do seu celular. Quer dizer, não faz muito tempo que, para descobrir aquela canção que te chamava atenção num filme, série ou anúncio de TV, tu tinhas que recorrer às infos em letras de bula, na soleira dos créditos finais ou esperar que alguma hora a mesma fosse executada em outro veículo. 

Isso, claro, antes da internet; com a internet, os fóruns, as ferramentas de busca e a revolução deflagrada pelo Napster, o acesso e o modo como se consome música mudou para sempre – mas minha maior dívida com Shawn Fanning foi por ele ter me apresentado a Franky Wedge. Fato é que o Shazam eliminou todos os trâmites até a identificação da faixa almejada, e aliado à conta no Spotfy, tornou minha vida um pouquinho menos miserável. Essa historinha só serve para ilustrar que não foi exatamente fácil chegar a U.R.A Fever do The Kills, executada nessas duas cenas de Os Perdedores (The Loosers, 2010). 

Round 2

O filme não é lá grande coisa, mas tem seus momentos e as duas passagens são prova disso. Clay (Jeffrey Dean Morgan) e seu grupo de ações encobertas da CIA foram traídos por seus superiores e dados como mortos; algo que viria a calhar se quisessem chegar aos algozes de patente alta. Nos vídeos acima, Clay conhece Aisha al-Fadhil (Zoë Saldana), uma afegã casca grossa cuja agenda converge com a dos Perdedores, mas antes dessa convergência ocorrer, digamos que a coisa esquenta... muito.
Quanto a descoberta de The Kills – isto é, o duo Alison Mosshart e Jamie Hince –, devo dizer que o som deles é presença constante em playlists pessoais e no 7list Jagunços. The Kills é uma pitada de PJ Harvey com The Velvet Underground, numa pegada econômica lo-fi e rompantes de garage rock. Vale a pena conferir a performance deles ao vivo, sobretudo a entrega de Mosshart no palco. 


Dicas para entrar no clima: Future Starts Slow, Bitter Fruit, Siberian Nights, Black Ballon e Tape Song. Os Perdedores é da grife Vertigo, durou 32 edições e teve cinco encadernados (TPBs), dos quais o primeiro foi publicado pela Panini em 2010. Saiu numa época errada, quando a editora apenas tateava o terreno, quase que pisando em ovos, por saber que o selo adulto da DC tinha um histórico editorial conturbado – herdado da Metal Pesado, Tudo em Quadrinhos, Devir e Pixel. 
Excerto de The Loosers #1/2003, de Andy Diggle & Jock, publicado no Brasil em Os Perdedores #1: Hora do Troco/2010.

Logo, a confiança do leitor naquele momento deveria ser reconstruída do zero e títulos como Os Perdedores ficaram pelo caminho. Trata-se do trabalho da vida de Andy Diggle e um começo arrebatador de Jock como artista regular; olhando em retrospecto, o recente – e badalado - Xerife da Babilônia, de Tom King & Mitch Gerads, guardadas suas proporções, tem linguagem e proposta bem parecidas. 

Pena que a Panini não é dada a segundas chances. Perde o leitor, perdem Os Perdedores.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Os Últimos Clones



Quando a audiência de Star Wars embarca numa série animada como The Clone Wars, parece óbvio que a história narrada ali faria uma ponte entre os Episódios II e III, encerrando-se, supostamente, onde A Vingança do Sith teria início. Foi o que imaginei durante seis impecáveis temporadas, quer dizer, o fecho das Guerras Clônicas de Dave Filoni reproduziria o clímax da versão¹ de Genndy Tartakovsky (Clone Wars, 2003) ou daria um rumo distinto aos derradeiros momentos do conflito.

No fim, nenhuma coisa nem outra. De significativo mesmo, o final do sexto ano apenas revelava como Yoda tomara ciência da técnica do fantasma da Força e silenciava quanto à ação Separatista que culminaria no sequestro de Palpatine. Hoje, contudo, sem qualquer anúncio prévio, a sétima temporada de The Clone Wars saiu do saco e, ao que parece, vem para preencher essas lacunas. 

Algo, no mínimo, inusitado, já que a bola da vez seria Resistance, o sucessor do recém-findo Star Wars Rebels, que teria seu lugar entre os 30 anos que separam os Episódios VI e VII. Mas isso não tem qualquer relevância, o que importa é que quanto mais Ahsoka Tano, melhor².

¹ Não absorvida no novo cânone inaugurado em 2014 - e alvo do 7 Jagunços #41. ² No Webisode acima, A Disarming Lesson, de Forces of Destiny, descobrimos o quão parecida a Padawan de Anakin é com seu Mestre.

O Conto de Emily

Ok. Concordo. Esse lugar está bastante empoeirado, nem imagino se fará alguma diferença para alguém, mas sim, ele precisa mesmo de um trato. As obrigações no site Arte-Final HQ e, principalmente, a edição do podcast 7 Jagunços, me fizeram renunciar o abastecimento desse Almanaque, mas confesso que de uns tempos para cá, ando sentindo falta de uma válvula de escape para extravasar sobre temas mais variados, fora do nicho quadrinhos. A lâmpada na minha cabeça acendeu junto com a renovação do domínio e seu débito no cartão de crédito. Os cento e poucos paus foram uma paulada, então, nada mais justo que voltar ao prelo. Podemos começar? 
Nunca me diverti de fato com V de Vingança. É uma leitura densa, que toca em temas complexos, indigestos e metáforas sociais que a maioria de nós – assim penso – preferia que estivessem datados, mas 30 anos depois teimam em estampar o cotidiano. V de Vingança me assusta e o que julgo ser o [meu] maior ponto de pressão é a sequência em que Evey sofre tortura psicológica via psicologia reversa quando ludibriada a crer que estaria sob custódia das Autoridades e se vê imersa na história de Valerie [...] 

Excerto de V de Vingança, pg. 161, Panini/2012.
[...] um drama que vi ecoado na saga particular de Emily em The Handmaid’s Tale. Condenada por repetidas insubordinações e tentativas de insurreição à época que era Aia – serviçal reprodutora – no mundo de Gilead, a personagem de Alexis Bledel passa a viver o diabo num campo de trabalhos forçados, com comida escassa, exposta a ar e água insalubres, em meio a memórias de outra vida, nos braços de sua antiga companheira e a filha, antes da revolução que obliterou as liberdades individuais, os direitos civis e a laicidade do Estado.

Emily é apenas uma coadjuvante no jogo de gato e rato vivido pela protagonista, June/Offred, mas o sofrimento da primeira é tamanho – inclusive espelhado na magreza esquálida que reduz o corpo a ossos e um olhar extremamente desolador –, que seus poucos momentos de tela eclipsam as agruras da segunda. Não que a vida de June tenha sido fácil nesse segundo ano da série, pelo contrário, o desconforto transmitido por Elisabeth Moss ao caos controlado na residência dos Waterford é algo por si só enlouquecedor; o que só me faz cogitar que talvez The Handmaid’s Tale não seja uma série dada a maratonas. Deve-se assistir no padrão semanal como manda o figurino verde & escarlate

The Handmaid’s Tale ganhou tudo que tinha que ganhar em termos de premiações no seu ano debute. A julgar pelo número expressivo de menções que recebeu na lista do Emmy 2018, não me espantaria se repetisse o feito, mas com um diferencial, a briga entre atrizes coadjuvantes aponta para uma disputa acirrada entre a Bledel citada aqui e mais duas gigantes de THT, Ann Dowd (Tia Lydia) e Yvonne Strahovski (Serena Waterford). 
[Spoiler - início] Por último, o season finale que foi ao ar semana passada precisava desesperadamente oferecer uma recompensa para o espectador. Não esperava que June saísse em desforra catártica com uma M-15, cravejando as vizinhanças de Gilead de balas. Foi uma decisão difícil entregar a bebê Holly/Nichole à Emily, ainda mais se imaginarmos que a heroína não tem qualquer respaldo logístico ou informacional para comprar uma batalha para reaver sua primogênita. A história de June poderia ter se encerrado ali, seguindo em frente e aceitando o destino de Hannah, contudo, se aquela não era uma vida que desejaria para sua segunda filha, recém-nascida, o que dizer para a primeira, retirada de sua guarda em circunstâncias impossíveis?! [Spoiler - final]
The Handmaid’s Tale não é uma série fácil, te dá quase nenhuma recompensa e, provavelmente, vai subverter sempre o direcionamento que tu tinhas em mente sobre o destino de algum personagem. Acredite, são todos bons motivos para seguir acompanhando.