segunda-feira, 23 de julho de 2018

Fale com Ele

Uma parcela expressiva da crítica especializada que volta e meia analisa os filmes de Christopher Nolan, põe em xeque o hábito desse diretor de explicar exaustivamente, quase que ipsis litteris, as motivações dos personagens, cada engrenagem que lhes cercam, deixando pouca ou nenhuma margem de manobra para o espectador tirar suas próprias conclusões. Não acho que seja para tanto, mas reconheço que, ao menos na trilogia quiróptera, esse curso de ação não chega a me incomodar; na verdade, o esmero em conferir verossimilhança, sobretudo, na logística de gadgets do Batman é uma das [várias] coisas que gosto nessas películas. 

Um clássico exemplo disso reside na explicação utilizada durante a confecção da máscara e capuz: pedidos separados¹, quantidades vultosas para não individualizar a figura de um comprador e especificações detalhadas para que os próprios Bruce e Alfred pudessem montá-los. Há quem se incomode com essa preocupação obsessiva de lançar luzes nos mínimos detalhes, como se o realizador estivesse tentando ancorar o personagem ao mundano como uma fuga da realidade: ele estava dirigindo um filme de super-herói e não era algo que o deixava confortável

Novamente, não vejo por esse lado. Quando os Irmãos Nolan quebram suas cabeças para que o mundo de Gotham faça sentido a audiências de cinema, se bem feito, esse esforço serve como contribuição à própria mitologia do personagem nas histórias em quadrinhos, preenchendo lacunas, respondendo perguntas que talvez ninguém tenha feito antes. Claro que não dá para julgar um filme pelo trailer, mas um item específico me chamou atenção justamente por ser algo que sempre me incomodou nas aventuras do Aquaman: o fato dos atlantes vocalizarem dentro d’água como se estivessem na superfície.
Excerto de The Brave and the Bold #32/2010, de J. M. Straczynski & Jesus Saiz, publicado no Brasil em Dimensão DC: Lanterna Verde #32/2011; note que por mais instigante que seja o roteiro, ao se ignorar o fator comunicação submarina, a história sofre revés na suspensão de descrença.
Parece bobo, eu sei, mas desculpa, não dá. Se no material original, essa suspensão de descrença falha miseravelmente comigo, o que posso dizer quando a ouço, reproduzida em live-action? Em defesa de James Wan, tu me lembras de que o Maravilhoso em Aquaman remete - por que não? - ao maravilhoso literário, de fábulas e contos de fadas, onde o sobrenatural pode ser factível porque o leitor abraça a convenção da narrativa, o que torna inteligível a existência do impossível – vide o caso de animais falantes. Agora imagine-se como um atlante médio e tente dizer “foda-se, Luwig!” com a boca cheia de água. Conseguiu? Já tentei inúmeras vezes e nunca tive sucesso, mas ei, não desista, ok?Em Liga da Justiça, Mera cria um bolsão de ar para conversa com Arthur. Faz sentido, o que não faz – e quero ser enganado³ durante o filme solo dele – é vê-lo, aparentemente, falando sem esse artifício. Aí não. Nos quadrinhos, não raro, nos deparamos com recursos narrativos que driblam criativamente limitações vocálicas dos personagens, entregando quadrinhos sofisticados, que transformam o portador de necessidades especiais em alguém que tem bastante a dizer, mas de um jeito pouco usual. 
O recordatório acima, presente na edição supracitada, resolve a questão: Aquaman é um telepata. Se a especificidade desse dom é o direcionamento, isto é, a vida marinha, os Atlantes também deveriam estar dentro desse raio de abrangência.
Para fundamentar isso, vou usar o Clint Barton de Matt Fraction que, em determinado momento, fica surdo e passa a se comunicar por linguagem de sinais; o autor vai até mais longe com Lucky, o cão de Clint, que tem balões simulando via símbolos como ele, supostamente, compreende o mundo ao seu redor. Com Raio Negro, o buraco é até mais embaixo, já que se trata de personagem cujo poder destrutivo da voz impele um automutismo que, se bem aproveitado, rende até Eisner; e no cinema, Oscar de melhor filme. Esse tipo de contexto, que desafia convenções linguísticas e/ou se adapta às dificuldades sensoriais dos falantes, tem cacife para oferecer uma experiência única, fora da caixinha – ou do aquário.Não tenho confiança que veremos algo assim no cinema e sendo bem franco, o que esperam de um Aquaman com atitude de Sons of Anarchy e personalidade de Flipper?! 

¹ Máscara frontal destacável e acoplável com hastes (orelhas/chifres) com mecanismo de áudio e vigilância (escuta) embutidos. ² Não sou exatamente um especialista em Aquaman; pode e deve existir histórias que essa linguagem submarina é problematizada nos termos desse texto. ³ Uma simples telepatia ativada quando no meio subaquático já daria um bom caldo de peixe.

Um comentário:

Anônimo disse...

Tomar no cu, o filme que se passa numa cidade afundada e vc com esse mimimi