quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Conto de Emily

Ok. Concordo. Esse lugar está bastante empoeirado, nem imagino se fará alguma diferença para alguém, mas sim, ele precisa mesmo de um trato. As obrigações no site Arte-Final HQ e, principalmente, a edição do podcast 7 Jagunços, me fizeram renunciar o abastecimento desse Almanaque, mas confesso que de uns tempos para cá, ando sentindo falta de uma válvula de escape para extravasar sobre temas mais variados, fora do nicho quadrinhos. A lâmpada na minha cabeça acendeu junto com a renovação do domínio e seu débito no cartão de crédito. Os cento e poucos paus foram uma paulada, então, nada mais justo que voltar ao prelo. Podemos começar? 
Nunca me diverti de fato com V de Vingança. É uma leitura densa, que toca em temas complexos, indigestos e metáforas sociais que a maioria de nós – assim penso – preferia que estivessem datados, mas 30 anos depois teimam em estampar o cotidiano. V de Vingança me assusta e o que julgo ser o [meu] maior ponto de pressão é a sequência em que Evey sofre tortura psicológica via psicologia reversa quando ludibriada a crer que estaria sob custódia das Autoridades e se vê imersa na história de Valerie [...] 

Excerto de V de Vingança, pg. 161, Panini/2012.
[...] um drama que vi ecoado na saga particular de Emily em The Handmaid’s Tale. Condenada por repetidas insubordinações e tentativas de insurreição à época que era Aia – serviçal reprodutora – no mundo de Gilead, a personagem de Alexis Bledel passa a viver o diabo num campo de trabalhos forçados, com comida escassa, exposta a ar e água insalubres, em meio a memórias de outra vida, nos braços de sua antiga companheira e a filha, antes da revolução que obliterou as liberdades individuais, os direitos civis e a laicidade do Estado.

Emily é apenas uma coadjuvante no jogo de gato e rato vivido pela protagonista, June/Offred, mas o sofrimento da primeira é tamanho – inclusive espelhado na magreza esquálida que reduz o corpo a ossos e um olhar extremamente desolador –, que seus poucos momentos de tela eclipsam as agruras da segunda. Não que a vida de June tenha sido fácil nesse segundo ano da série, pelo contrário, o desconforto transmitido por Elisabeth Moss ao caos controlado na residência dos Waterford é algo por si só enlouquecedor; o que só me faz cogitar que talvez The Handmaid’s Tale não seja uma série dada a maratonas. Deve-se assistir no padrão semanal como manda o figurino verde & escarlate

The Handmaid’s Tale ganhou tudo que tinha que ganhar em termos de premiações no seu ano debute. A julgar pelo número expressivo de menções que recebeu na lista do Emmy 2018, não me espantaria se repetisse o feito, mas com um diferencial, a briga entre atrizes coadjuvantes aponta para uma disputa acirrada entre a Bledel citada aqui e mais duas gigantes de THT, Ann Dowd (Tia Lydia) e Yvonne Strahovski (Serena Waterford). 
[Spoiler - início] Por último, o season finale que foi ao ar semana passada precisava desesperadamente oferecer uma recompensa para o espectador. Não esperava que June saísse em desforra catártica com uma M-15, cravejando as vizinhanças de Gilead de balas. Foi uma decisão difícil entregar a bebê Holly/Nichole à Emily, ainda mais se imaginarmos que a heroína não tem qualquer respaldo logístico ou informacional para comprar uma batalha para reaver sua primogênita. A história de June poderia ter se encerrado ali, seguindo em frente e aceitando o destino de Hannah, contudo, se aquela não era uma vida que desejaria para sua segunda filha, recém-nascida, o que dizer para a primeira, retirada de sua guarda em circunstâncias impossíveis?! [Spoiler - final]
The Handmaid’s Tale não é uma série fácil, te dá quase nenhuma recompensa e, provavelmente, vai subverter sempre o direcionamento que tu tinhas em mente sobre o destino de algum personagem. Acredite, são todos bons motivos para seguir acompanhando.

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